sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Fração de uma tarde

Fim de tarde de um fim de semana no fim de um feriado, o começo do meu fim.
São seis da tarde. O sol está cansado, sua luz cor-de-damasco realça penosamente a poeira pelas frestas da persiana: implora por uma trégua.
Deito o leite no chá e observo o desenho se desfazer. O primeiro gole me traz uma memória agradável, tento agarrá-la, mas ela se esvai como uma nuvem de fumaça no ar.
Em vinte e quatro quadros por segundo eu poderia jurar que em um deles eu me senti novamente feliz, mas sei que estou apenas tentando me enganar com palavras: nada poderia cessar esta angústia - sou eu quem vive dentro dela agora, alimentando-me de reveses do passado e do desalento do amanhã.
O sabor adocicado do chá logo me deixa um amargo na boca, o peso do meu corpo desconforta, tenho uma vontade súbita de arrancar a pele da carne, as unhas dos dedos, os dentes da boca, os olhos do crânio; de explodir os meus pulmões e esmagar os meus ossos; de fazer com que a minha alma se expanda a ponto de romper-me em partículas e, finalmente, poder dispersar-me no ar. Mas é inútil tentar, apenas impludo e morro aos poucos, deterioro-me por debaixo desta carcaça.
Uma gota de sangue colore o leite sobre mate. 
O sol agora repousa.